quinta-feira, 3 de setembro de 2015

Comportamento Verbal - A Manipulação do Comportamento Verbal* {Parte 4 de 5}





     Ao revelar as estruturas da língua como parte dos episódios verbais, Skinner (1957) define o autoclítico como o operante verbal que fornecerá elementos para o ouvinte sobre as propriedades dinâmicas do comportamento, sobre as condições que controlam ou dão origem ao comportamento e sobre a ordem temporal dos eventos. Além disso, o conceito de autoclítico aponta para a existência de um sistema diretor, organizador, avaliador, seletor e produtor das respostas verbais.

            Outra forma de definir o autoclítico é dizer que este não é um operante verbal independente, pois ele serve para completar e acompanhar os outros operantes verbais primários (mando, tato, ecóico, textual, transcrição e intraverbal) e dar mais informações ao ouvinte do que acontece no mundo do falante. Por isso diz-se que o autoclítico é um operante verbal secundário.
Para Skinner (1957), é importante revelar e estudar algumas estruturas da linguagem praticada pelas comunidades verbais sem que para isso o falante seja apontado exclusivamente como alguém que possui necessidades, intenções ou atitudes propositais internas que o inclinam a emitir certas respostas verbais. As estruturas da língua presentes nos operantes autoclíticos são adicionadas aos episódios verbais pelo controle das variáveis ambientais e históricas dos indivíduos que compartilham uma mesma comunidade verbal e não por entidades internas.

Na obra de Skinner é possível identificar alguns tipos de operantes verbais autoclíticos, a contar: os descritivos, os qualificadores, os quantificadores, os relacionais e os de manipulação. Os autoclíticos descritivos são operantes verbais que permitem o falante discriminar, descrever ou tatear para o ouvinte o seu próprio comportamento verbal e as condições que o inclinam a se comportar (Souza, Miccione & Assis, 2009). Um exemplo de uma afirmação descritiva com elementos autoclíticos poderia ser a seguinte: “Vejo um gato preto lá, tome cuidado, pois hoje é sexta-feira 13”. Este tipo de afirmação descritiva oferece ao ouvinte informações sobre o que controla a resposta verbal do falante e indica como o ouvinte deverá se comportar diante desta frase. O autoclítico descritivo também pode ocorrer sob controle de eventos emocionais ou motivacionais, podendo informar a força de uma resposta (ex.: “Tenho certeza de que é um gato preto” e “Acho que é um gato preto”) e apontar o tempo no qual o comportamento ocorre (ex.: “Eu vejo um gato preto”, “Eu vi um gato preto”, “eu verei um gato preto”).
O autoclítico qualificador é o operante verbal que depende das relações de controle estabelecidas em um episódio verbal completo. 
Três categorias são importantes para explicar este tipo de autoclítico. O primeiro é o autoclítico qualificador de negação, caracterizado aqui pela expressão “Não”. Ao ser emitido, um “Não!” pode tatear os eventos relacionados ao episódio verbal em questão, por exemplo, em “O gato preto não está lá!”, a unidade autoclítica “não” qualificou, por meio de um tacto, um evento do ambiente. O segundo autoclítico qualificador diz respeito às afirmações que modificam o comportamento do ouvinte, pois indicam a existência de concordância entre o que é dito e o estado das coisas do mundo, ou seja, um “Sim!” é uma confirmação dos eventos do ambiente. Por exemplo, dizer a alguém a afirmação “É um gato preto”, confirma melhor um evento do ambiente do que dizer: “Acho que é um gato preto”. Já o terceiro tipo de autoclítico qualificador diz respeito aos elementos verbais denominados de advérbios ou adjetivos pela gramática de uma determinada comunidade verbal. Alguns exemplos são: “Felizmente”, “Seriamente”, “Provavelmente”, entre outros. Assim, a emissão desse tipo de autoclítico qualificador (ex.: “Provavelmente veremos gatos pretos nesta sexta-feira 13”) sinaliza para o ouvinte que o controle de uma resposta verbal pode não ter a mesma qualidade e magnitude dos autoclíticos de negação e afirmação. Para Skinner (1957), a função autoclítica também pode ser exercida por um olhar malicioso ou por um tom de voz.

O autoclítico quantificador diz respeito àquelas respostas verbais caracterizadas pela gramática tradicional como adjetivos e advérbios de quantidade e de tempo (ex. poucos, muitos, alguns, todos, sempre) e os artigos definidos de número e gênero (a, as, o e os) que informam as propriedades do comportamento do falante e as características dessas propriedades (Souza, Miccione & Assis, 2009). Por exemplo, as frases “Alguns gatos pretos passaram aqui” e “Um gato preto passou aqui” pode afetar de forma diferente o comportamento do ouvinte, ao permitir que ele entre em contato com as propriedades quantitativas que controlaram a emissão da resposta verbal do falante.

Já o autoclítico relacional diz respeito aos aspectos gramaticais e sintáticos do comportamento verbal e pode ser entendido como as preposições, conjunções, pontuações e outras formas de concordâncias verbais de tempo, gênero e número. É o autoclítico relacional que permite que as unidades verbais e os operantes básicos se ampliem e tomem novas funções. Por exemplo, dizer “Ela tem medo de gato preto” indica que há uma relação entre “gato preto” e “medo” ligados pela expressão “de” e, ainda, indica um aspecto relacional contido na história do indivíduo. Há ainda o autoclítico de manipulação, em que o falante pode fazer uso de outros recursos gramaticais para melhor organizar seu comportamento verbal e atingir com mais eficácia as pessoas envolvidas no episódio verbal, tais como, “Mas”, “E”, “Ou”, entre outros.

Ao falar sobre os aspectos gramaticais e sintáticos do comportamento verbal por meio dos autoclíticos, Skinner (1957) retoma as contingências de reforçamento como a principal fonte de compreensão deste fenômeno verbal. Para o autor, não há necessidade de recorrer à linguística estruturalista para explicar a ocorrência dessas unidades de respostas quando uma análise funcional pode identificar melhor a aquisição e o padrão dos comportamentos verbais, e as consequências relacionadas com sua emissão.

O comportamento do ouvinte por meio de processos autoclíticos pode ser instalado a partir de condicionamento reflexo e de estímulos discriminativos. Assim, um estímulo neutro pode adquirir propriedades eliciadoras para uma resposta reflexa se for emparelhado repetidas vezes ou com muita intensidade com tais respostas. Ou seja, um estímulo escrito ou sonoro “Cuidado!”, inicialmente neutro, se emparelhado com respostas reflexas de dilatação da pupila, tremor ou sudorese, pode tornar-se suficiente para que o ouvinte emita tais respostas reflexas na presença dos referidos estímulos. Além disso, a palavra “Cuidado” pode adquirir, ao longo da história do indivíduo, propriedades discriminativas que sinalize algo no ambiente que seja perigoso e que algum tipo de resposta do ouvinte deve ser emitida para que ele seja capaz de lidar com uma possível alteração de seu ambiente.

Este processo também ajuda a explicar um tipo de alteração que o ouvinte ou observador pode fazer em seu ambiente por meio de uma "instrução", ou seja, um indivíduo pode emitir certos tipos de resposta, verbais e não verbais, por causa dos estímulos verbais que ocorrem em condições específicas. Assim, um falante informa um ouvinte sobre como agir em determinada situação e caso o ouvinte se comporte como foi instruído, diz-se que ele agora sabe algo que não sabia sobre o evento em questão. Por exemplo, se um ouvinte recebe a informação “Hoje é sexta-feira 13 e há gatos pretos na vizinhança, cuidado com o azar”, esta instrução permite que ele saiba, conheça e altere seus comportamentos em decorrência do que foi instruído. Porém, há outros fatores que podem afetar o comportamento do ouvinte em seguir certas instruções. Um destes fatores é o prestígio do falante ou a crença do ouvinte em relação ao que o falante diz.

Considerações Finais



Por meio destas descrições do fenômeno verbal autoclítico, podemos então entendê-lo como um operante verbal que, após estimulação auditiva ou visual, encoberta ou não, visa articular e organizar uma resposta verbal, sonora ou motora, e que seu controle dependerá das relações contextuais presentes no episódio verbal. É importante notar que esta categoria também aponta o falante como ouvinte de si mesmo. Nesta unidade, Skinner (1957) busca atribuir ao autoclítico uma característica peculiar do comportamento verbal que, mesmo sendo explicado por meio de aspectos gramaticais e sintáticos, também é aprendido e mantido pela comunidade verbal.

*Texto desenvolvido a partir do aprendizado na disciplina Comportamento Verbal do Programa de Pós-Graduação em Ciências do Comportamento da UNB.


Referências

Skinner, B. F. (1957). Verbal Behavior. Cambridge, Massachusetts: B. F. Skinner Foudation.
Souza, C. B. A., Miccione, M. M. & Assis, G. J. A. (2009). Relações autoclíticas, gramática e sintaxe: O tratamento skinneriano e as propostas de Place e Stemmer. Arquivos Brasileiros de Psicologia, 61 (1). Retirado de http://seer.psicologia.ufrj.br/index.php/abp/article/view/186/301 em 13 de junho de 2014.

sábado, 9 de maio de 2015

Poesia Sobre uma Vivência Feminista

Os órgãos dos meus sentidos captam o feminismo
E inclinam minhas condutas no Universo.
É arte e ciência que limpam meu organismo
Deixando-o fortalecido para um julgamento controverso.

A luta grita: Se é mulher, seja protagonista!
A luta pede: Se é homem, não seja arrogante!
A luta continua: Se é mulher, seja vanguardista!
A luta inclui: Se é homem, seja coadjuvante!

domingo, 22 de fevereiro de 2015

Comportamento Verbal - Variáveis Múltiplas* {Parte 3 de 5}


Após apresentar sua proposta de análise funcional do comportamento verbal, bem como apontar as variáveis de controle que operam nos episódios verbais, Skinner (1957) discute as variáveis múltiplas que afetam, de forma entrelaçada, as respostas verbais. Para tanto, os apontamentos de Skinner em relação às variáveis múltiplas serão apresentados a seguir. 


Após discutir as relações funcionais do comportamento verbal, Skinner (1957) revelou que uma única resposta (verbal ou não verbal) pode ser, e usualmente é, função de mais de uma variável e que uma única variável costuma afetar mais de uma resposta. Neste sentido, a resposta verbal “Cobra!” pode ser um mando para alguém ter cuidado, pode ser um tacto para sinalizar uma cobra no ambiente ou ainda pode ser uma resposta ecóica, textual ou intraverbal. Além disso, diferentes contextos e pessoas poderão reforçar diferencialmente a resposta verbal “Cobra!”, ou seja, a força de uma resposta verbal será múlti determinada pela combinação da comunidade verbal com outras variáveis de controle.
Para Skinner (1957), é claro que qualquer amostra do comportamento verbal é controlada e relaciona-se funcionalmente com muitas variáveis que operam ao mesmo tempo, pois qualquer resposta sob o controle de uma variável tem uma boa probabilidade de estar relacionada com outras variáveis também presentes. Isto significa que, se quisermos discutir sobre comportamento verbal ou analisá-lo de forma funcional, precisamos ter certeza de que levamos em conta todas as variáveis relevantes que compõem o fenômeno verbal.
Um tipo especial de causação múltipla diz respeito às audiências múltiplas que são aquelas variáveis múltiplas que controlam respostas diferentes ou a mesma resposta de diferentes maneiras. Assim, uma resposta verbal pode ser reforçada por uma audiência e punida por outra, ou ainda, a mesma resposta pode ser reforçada e punida pela mesma audiência dependendo do contexto e de outras variáveis envolvidas. Além disso, o autor aponta que a presença de uma audiência negativa só pode ser detectada se uma audiência positiva já tiver estabelecido seu efeito sobre uma determinada resposta verbal. Uma resposta verbal que foi reforçada e fortalecida pode perder sua força caso uma audiência negativa esteja em operação, como por exemplo: uma criança que fala obscenidades na presença de outras crianças pode ter suas respostas verbais reforçadas e mantidas por esta pequena comunidade, mas ao emitir as mesmas respostas obscenas na presença de um adulto pode ter seu comportamento verbal punido. Em outro caso, se o auditório negativo não for predominante, o resultado pode ser uma perda da eficácia diante de auditório positivo. É importante ressaltar que algumas respostas verbais podem nunca terem sido reforçadas, pois em sua primeira emissão houve uma supressão de sua força por conta da intensidade punitiva de alguma audiência.


Ao discutir sobre a causação múltipla, Skinner (1957) mostra que alguns operantes verbais também podem se combinar, como é o caso dos tactos múltiplos e os intraverbais. A combinação momentânea de dois tactos, de dois intraverbais ou de um tacto e de um intraverbal pode forçar a seleção de uma determinada resposta. Uma pessoa pode tatear uma condição psicoterapêutica se estiver sob controle da figura do psicólogo e do consultório da terapia; ou pode estar sendo controlada por dois intraverbais, “psico” e “terapia”; ou pode ainda estar sobre controle intraverbal da palavra “terapia” e na presença de um psicólogo diz que está em psicoterapia.

Outra forma de controle por variáveis múltiplas diz respeito à estimulação suplementar. Considerando o fato de que as contingências são complexas, nem sempre a resposta verbal será afetada por todos os seus antecedentes e consequentes, ou seja, por suas múltiplas causas. Propriedades específicas da condição estimuladora podem controlar com maior ou menor força a resposta verbal. Neste sentido, a estimulação suplementar pode contribuir para o aumento da probabilidade de ocorrência de respostas já existentes no repertório do indivíduo. Em outras palavras, a estimulação suplementar pode servir como estimulo para a ocorrência de uma resposta que esteja sob controle fraco. É por meio de tal estimulação que, normalmente, o falante induz o ouvinte a dizer algo que, de outra forma, ele não diria.

Há alguns fatores que contribuem para a estimulação suplementar, a contar: as deixas formais e temáticas e também as investigações formais e temáticas. Nas deixas formais, um indivíduo pode apresentar uma sugestão ecóica para outro que esteja em uma verbalização com controle intraverbal, ou o mesmo indivíduo pode recorrer a uma sugestão textual de suas próprias anotações. A conexão intraverbal pode ser fraca, assim outra pessoa pode emitir uma resposta verbal ecóica, dizendo uma palavra, para que o falante consiga re-conectar os estímulos presentes do controle intraverbal, ou alguma anotação pode funcionar como deixa com esta mesma função de re-conectar os elementos intraverbais.  Em geral, frases incompletas de um falante inclinam o ouvinte a emitir qualquer resposta verbal que venha a completar o que o falante poderia dizer.

No caso das deixas temáticas, uma sugestão para uma resposta verbal aparece sob a forma de um tacto ou de uma resposta intraverbal. Estes tipos de deixas são conhecidos como “palpites”. Assim, enquanto uma sugestão formal seria uma palavra sussurrada ou rabiscada num papel, uma deixa temática consistiria em estímulos verbais, comumente evocado em relação ao contexto presente do falante e do ouvinte que são inicialmente emitidos como respostas intraverbais.

Nas investigações formais, que também podem se analisadas pelos estímulos ecóicos ou textuais, outras variáveis podem operar de forma mais eficaz como fontes suplementares de força. Uma vez que exista fraqueza do estímulo ecóico ou textual devemos sondar outros estímulos que poderiam estar emparelhados com a resposta verbal a ser emitida. Assim, podemos produzir um comportamento verbal por meio de qualquer variável que reforce o comportamento, independentemente da forma, ou por meio de qualquer variável combinada com variáveis puramente formais. Já nas investigações temáticas, uma pessoa pode emitir um mando que sinalize que algo precisa ser dito, ou seja, um indivíduo pede que outro emita uma resposta verbal que esteja sob controle de estimulação intraverbal. Em geral testes projetivos e de percepção usam este recurso.

Após discutir sobre a estimulação suplementar e apresentar diversas formas para se fortalecer uma resposta verbal, Skinner (1957) aponta que um indivíduo pode emitir verbalizações cujas respostas verbais serão fragmentárias e continua atribuindo a este fenômeno a causação múltipla. Em outras palavras, a combinação ou o emaranhado de duas ou mais variáveis, de operantes com a mesma força, de audiências com controle fraco, ou até mesmo de unidades mínimas, produzem respostas verbais e estas respostas podem aparecer de formas fragmentadas. Neste sentido, podem ocorrer respostas verbais distorcidas ou sem sentido.
Para Skinner (1957), respostas pobremente condicionadas são mais propícias à fragmentação. As recombinações dos fragmentos de respostas são mais frequentes no comportamento das crianças pequenas, bem como no dos adultos que estão aprendendo uma nova língua. Até mesmo um repertório bem estabelecido pode sofrer recombinação em condições de fadiga, de doença ou por efeito de certas drogas. Estimulação aversiva também tende a produzir esse tipo de distorção.

Mesmo que as combinações possam ser estudadas como meras formas de respostas, separadamente das variáveis ou controle, é importante notar que duas respostas tendem a ser fortes ao mesmo tempo caso ambas sejam funções da mesma variável. Muitas destas combinações resultam de misturas de dois ou mais tactos sob o controle do mesmo estímulo. Até mesmo os estímulos ecóicos e textuais podem contribuir com fragmentos se ocorrerem condições apropriadas. Além disso, como já foi dito pelo autor, muitas combinações mostram a interação de tactos e de intraverbais, ou de dois ou mais intraverbais.

Considerações finais

O fenômeno verbal pode ser explicado didaticamente por meio da definição de cada operante verbal que controla os episódios verbais, mas é imprescindível atribuir a este fenômeno a causação múltipla, bem como o papel crítico das contingências culturais. A múlti determinação do comportamento é um princípio importante da aprendizagem e não seria diferente para o comportamento verbal, a causação múltipla contribui para o entendimento do processo pelo qual os indivíduos falam, escrevem, lêem e se expressam, porque estão em constante interação com sua comunidade verbal, ou seja, estão suscetíveis às interações culturais. Além disso, é importante ressaltar que, uma única variável, ou uma única condição operante, ou até mesmo o fato dos humanos terem condições fisiológicas para verbalizarem e se expressam, não torna suficiente a explicação do fenômeno verbal.

 Referências
Skinner, B. F. (1957). Verbal Behavior. Cambridge, Massachusetts: B. F. Skinner Foudation.

* Texto desenvolvido a partir do aprendizado na disciplina Comportamento Verbal do Programa de Pós-Graduação em Ciências do Comportamento da UNB.






terça-feira, 30 de dezembro de 2014

Disponibilizo o artigo sobre Análise Funcional, Avaliação Psicológica, Gastroplastia e Obesidade que meus amigos e eu publicamos na Revista Fragmentos de Cultura.
Estou à disposição para debates e esclarecimentos.

Aproveitem!

Clique aqui
Análise Funcional como Instrumento de Avaliação Psicológica para Gastroplastia

Ou Aqui: http://seer.ucg.br/index.php/fragmentos/issue/view/193



domingo, 6 de julho de 2014

Comportamento Verbal - Variáveis de Controle* {Parte 2 de 5}


    A seleção natural, o condicionamento operante e as práticas culturais, são as principais contingências responsáveis pelo desenvolvimento dos operantes verbais. Enquanto a seleção natural atua nos aspectos filogenéticos da espécie humana, o condicionamento operante atua no nível ontogenético. Já as práticas culturais dizem respeito à evolução da cultura decorrente dos agrupamentos de indivíduos. Estas contingências atuam sobre os organismos humanos de forma entrelaçada, fortalecendo, então, a ocorrência do comportamento verbal (Passos, 2003). 
    A compreensão destes três níveis de influências, que atuam juntas, sobre os operantes verbais, contribui para o entendimento das relações que se estabelecem na comunidade verbal. Sendo assim, o atual ensaio tem como objetivo definir e caracterizar os principais operantes verbais e suas variáveis de controle.

O Mando

Ordenar, suplicar, pedir, aconselhar ou advertir, são comportamentos verbais que estão sobre controle de estados de privação ou estimulação aversiva e, assim, especificam sua consequência. Nas palavras de Skinner (1957), o mando é classificado como um operante verbal cuja característica principal é especificar uma consequência e está sob controle de uma operação estabelecedora (p. ex. privação, saciação ou estimulação aversiva).

As variáveis de controle do operante verbal mando são as operações estabelecedoras ou motivadoras. Entende-se por operação estabelecedora (OE) aquelas variáveis de controle cujas propriedades afetam um organismo pela alteração momentânea da efetividade reforçadora ou punitiva de um evento e também alteram momentaneamente os repertórios do organismo que já foram reforçados ou punidos por esses eventos. Em outras palavras, OE são condições que alteram o valor reforçador daqueles estímulos que já possuem propriedades reforçadoras para o indivíduo, tanto em um nível incondicionado (filogenético) quanto condicionado (ontogenético).

As OE podem ser de três tipos, a contar: (1) As condicionadas substitutas (OECS), que são caracterizadas por situações em que um evento neutro, que antecede uma operação estabelecedora incondicionada, passa a ter as características motivacionais desta; (2) as operações estabelecedoras condicionadas reflexivas (OECR), que envolvem relações entre estímulos antecedentes e estímulos aversivos, em que um estímulo que precede uma estimulação aversiva, quando apresentado sozinho passa a estabelecer uma condição para a emissão de qualquer resposta que remova o estímulo aversivo; (3) as operações estabelecedoras condicionadas transitivas (OECT), que se referem às situações nas quais a efetividade reforçadora de um estímulo condicionado depende do contexto no qual este reforçador condicionado foi estabelecido. Atualmente, o termo operação motivadora é usado, pois contempla as operações estabelecedoras (OE) e as operações abolidoras (OA), que são aqueles eventos que diminuem a efetividade de uma dada consequência.

Para entendermos um episódio verbal de mando sob controle de operações estabelecedoras ou motivadoras, segue abaixo um exemplo na figura 1:



Observa-se que um indivíduo cansado e com sono, possivelmente em um contexto em que está deitado em sua cama e a luz de ser quarto está acesa, ordena que uma pessoa (ouvinte) apague a luz. Ao ter a luz apagada o falante pode então descansar e dormir, pois irá “saciar” seu sono e eliminar uma estimulação aversiva, no caso, a luz. Neste exemplo há uma OE (cansaço e privação de sono em um contexto para dormir) que faz da resposta verbal “Apague a luz” um mando que especifica uma consequência (ter a luz apagada).

Não existe somente um tipo de mando. Existem também o mando prolongado, o mando supersticioso e o mando mágico. O mando prolongado acontece quando mandamos em uma comunidade que não possui condições para nos reforçar. Exemplos de mando prolongados acontecem quando damos ordens para crianças muito pequenas, animais sem treinamento ou quando as próprias crianças mandam nos brinquedos. Já o mando supersticioso se caracteriza por um reforço acidental da resposta, como por exemplo: uma pessoa em uma festa de réveillon faz pedidos para que o ano seja mais próspero. Se o ano desta pessoa foi próspero ela poderá estabelecer uma relação entre seus pedidos e a prosperidade de seu ano, mas esta relação é acidental. Quanto ao mando mágico, o falante pode criar analogias com mandos antigos, mas há uma baixa probabilidade de reforço, pois não há mediação do ouvinte, como por exemplo: uma pessoa em um engarrafamento pode dizer “anda logo, transito!”, mas nada acontecer.

O Comportamento Verbal sob o Controle de Estímulos Verbais    

            Para Skinner (1957), controle do comportamento verbal por estímulo pode ser controlado por estímulos verbais e não verbais. Para tanto, o autor busca tratar as respostas sob o controle de estímulos verbais, escritos ou orais, proporcionados pelo próprio falante ou por outra pessoa. Assim, as três principais categorias discutidas pelo autor são: comportamento de repetição, textual e o intraverbal.

        Tanto o comportamento de repetição (ecóico) quanto o textual (cópia) possuem como antecedente um estímulo discriminativo verbal, uma similaridade formal e uma correspondência ponto a ponto. Quando o falante escuta outra pessoa dizendo a palavra “gato”, por exemplo, pode então responder de forma semelhante dizendo também a palavra “gato”. A repetição é apontada por Skinner (1957) como a forma mais simples de comportamento verbal seguido de antecedente verbal e costumeiramente está presente no repertório de crianças em desenvolvimento, em rimas poéticas e em comportamentos verbais “patológicos” como a ecolalia. O autor mostra que a semelhança formal entre o estímulo e a resposta constitui parte dessas contingências e só pode ser explicada apontando-se para o significado da semelhança para a comunidade reforçadora e que a resposta verbal de repetição não depende do instinto para a imitação.

Já o operante verbal textual caracteriza-se pelo comportamento controlado pelo antecedente verbal de uma palavra escrita ou impressa e a resposta é vocal. Neste caso, há entre o estímulo e a resposta uma correspondência formal, arbitrariamente estabelecida. Ou seja, na presença da palavra escrita “bolo” a pessoa lê a mesma palavra “bolo”. Um comportamento textual está sob controle, ponto a ponto, de variáveis mínimas que chamamos de letras. A diferença entre esse tipo de operante e de repetição, é que o textual é produzido por um estímulo visual e não sonoro. Além disso, há também o comportamento de transcrição em que a resposta verbal escrita está sob controle de um estímulo antecedente verbal, que pode ser vocal ou escrito. Bons exemplos do operante verbal transcrição são as atividades de cópia e ditado realizadas principalmente pelas crianças na escola.

            O comportamento verbal intraverbal também está sob controle total de estímulos verbais anteriores, sejam eles sonoros ou visuais, mas a resposta não será correspondente ponto a ponto com o estímulo anterior. Ou seja, após um estimulo verbal sonoro ou escrito “Qual é seu nome?” o indivíduo pode responder de forma verbal ou escrita “José”. Dentro das comunidades verbais encontra-se intraverbais que foram aprendidos e estão arraigados nos repertórios verbais das pessoas.

O Tacto

            Skinner (1957) cria o termo tacto fazendo referência ao comportamento de entrar em contato com o mundo físico e para descrever o operante verbal que é controlado por estímulo discriminativo não verbal e sua conseqüência é um reforço generalizado. Neste sentido, entende-se por estímulo discriminativo um estímulo presente no ambiente que sinaliza a liberação de um reforço após a emissão de certa resposta. Já o reforço generalizado diz respeito àqueles reforços que foram emparelhados com uma variedade de outros reforçadores e adquiriram propriedades adicionais, pois não estão relacionados a privações específicas.

Em outras palavras, o tacto é um operante verbal cuja resposta verbal é emitida sob controle de um estímulo antecedente específico não verbal e produz como consequência o reforço generalizado. Para entendermos um episódio de tacto, segue abaixo um exemplo na figura 2:




No exemplo acima, um estímulo discriminativo não verbal sinalizou que a resposta “Está chovendo!” seria reforçada. Neste exemplo, o tacto que é controlado por um estimulo discriminativo não-verbal, cuja consequência é o reforço generalizado, é chamado de tacto puro. Porém, um tato pode ficar sob controle de uma operação estabeledora, neste caso também é um mando e é chamado de tacto impuro (Skinner, 1957).

A habilidade de tatear em uma comunidade verbal é importante para que os indivíduos não só entrem em contato com o mundo físico, mas também com o mundo interno, dentro da pele, deles mesmos e, em com alguns limites, de outras pessoas. Desta forma, os ouvintes podem ter acesso, mesmo que limitado, ao mundo do falante. Além disso, o tato permite que a comunidade verbal entre em contato, por meio do comportamento verbal do falante, com vários aspectos da cultura na qual o falante está inserido.

Condições que Afetam o Controle de Estímulos

            Na segunda parte do Verbal Behavior, Skinner (1957) listou e exemplificou os principais operantes verbais, a contar: o mando, o tato, a repetição, a transcrição, o textual e o intraverbal. No capítulo seis, o autor preocupou-se em fazer um levantamento sobre os determinantes e as influências sobre tais operantes verbais. O assunto, portanto, diz respeito ao controle de estímulos.

O capítulo seis aponta que a principal característica do reforço generalizado nos episódios verbais é a atenção. Ao verbalizarem, os indivíduos são capazes de prender a atenção dos ouvintes. Em outras palavras, os indivíduos se desenvolvem em um mundo onde as pessoas falam, escrevem, lêem, etc, e com isso aprendem que para obter a atenção destas pessoas, precisam emitir comportamentos semelhantes e com as mesmas propriedades funcionais. Ao tocar outras pessoas por meio dos comportamentos verbais, os indivíduos podem receber não só a atenção, mas também garantir outros reforços, como por exemplo, dinheiro ou sexo em situações verbais de trabalho ou de conquista amorosa.

Por conta das relações funcionais em que os reforços generalizados mantêm os comportamentos verbais, um falante pode apresentar verbalizações distorcidas. Um exemplo deste fenômeno é o tato distorcido, que é uma forma de contracontrole verbal a algum controle aversivo; como no caso das pessoas que mentem para não serem punidas.

Outra condição que afeta os episódios verbais é a punição. Skinner (1957) aponta que a punição do comportamento verbal pode ser de várias formas, como por exemplo: a desaprovação, suspensão de privilégios e até mesmo o silêncio. Para o autor, os efeitos da punição sobre o comportamento verbal podem indicar uma generalização em que se uma resposta for punida, o efeito se generalizará sobre respostas similares ou sobre respostas dadas em circunstâncias semelhantes. Se a atenção é o principal reforço generalizado nos episódios verbais, então, possivelmente, para punir um comportamento verbal não é preciso usar de agressões físicas ou verbais. Para tanto, basta não dar atenção ou ignorar a pessoa que emitiu uma verbalização inadequada. Nesse sentido, ao contrário de agredir, falar mal ou gritar (punição positiva), a punição negativa pode ser eficiente, pois parar de dar atenção às pessoas costuma ter efeito punitivo mais amplo e menos danoso.

Uma questão importante apresentada neste capítulo é que o falante e ouvinte podem ser a mesma pessoa, como no caso da leitura em que o leitor pode reagir ao seu próprio comportamento textual como ouvinte. Esta condição ajuda a compreender o comportamento de pensar como um contato social que o indivíduo faz com ele mesmo.

A Audiência

         Uma outra condição especial do controle de estímulos é a audiência. As pessoas falam, escrevem, sinalizam, etc, porque há outras pessoas que as ouvem, lêem, compreendem, etc. Até mesmo quando falamos sozinhos, há um ouvinte: nós mesmos. Assim, um ouvinte como audiência tem funções múltiplas: ser estímulo discriminativo e provedor de reforçadores. A audiência será então um estímulo discriminativo na presença do qual o comportamento verbal é caracteristicamente reforçado e diferentes audiências controlam diferentes subdivisões do repertório do falante. A audiência aparece sempre entre as condições antecedentes relacionadas com a emissão da resposta que constitui determinado operante verbal.

            A audiência pode ser positiva ou negativa. Será positiva quando especificar uma condição para que o comportamento verbal seja reforçado, e será negativa quando apontar uma condição na qual o comportamento verbal não será reforçado ou será punido. Neste sentido, se alguém tentar conversar sobre novelas com outra pessoa que não gosta e não assiste novela, seu comportamento verbal não será reforçado, pois aquele que não gosta de novelas não será uma audiência adequada para o comportamento de falar sobre novelas.

O Operante Verbal como Unidade de Análise

            Neste capítulo há um breve resumo sobre os seis tipos de relações funcionais existentes nos episódios verbais, a contar: (1) no mando, uma forma de resposta controlada por estados de privação ou estimulação aversiva produzirá um reforço específico; (2) nos comportamentos ecóico, textual e intraverbal a resposta é determinada por um estímulo verbal anterior, que pode ser sonoro, escrito ou ambos, e o reforço será generalizado; (3) no tacto, o estímulo que controla a forma de resposta costuma ser não-verbal e há generalização do reforço e a (4) a audiência é um estímulo anterior, usualmente não-verbal, que controla grupos de respostas (Skinner, 1957).

            O interesse nesta revisão para fechar a unidade concernente às variáveis de controle é para discutir as unidades de análises presentes no comportamento verbal. São os operantes verbais, com suas propriedades funcionais e contextuais, as unidades mínimas para esta análise. Portanto, os estudos dos comportamentos verbais feitos por meio da linguística ou da gramática são excluídos da abordagem funcionalista e contextualista, pois estes estudos poderiam considerar as palavras, frases, letras, sons, etc, como as unidades mínimas do comportamento verbal.

Considerações Finais

        Todos os operantes verbais aqui descritos possuem propriedades singulares, mas atuam de forma entrelaçada em episódios verbais complexos, como por exemplo, aqueles que envolvem descrição de sentimentos. Assim, um analista do comportamento pode atentar-se não só para a relação experiencial que um indivíduo estabelece com seu mundo físico, mas também com seu mundo privado.
     Além disso, Skinner mostra que o estudo do comportamento verbal contribui para o entendimento do como a cultura de desenvolve e as razões pelas quais as comunidades verbais reforçam ou punem certas verbalizações. Em outras palavras, podemos dizer que para o bem ou para o mal é a comunidade verbal a raiz das práticas culturais dos humanos.





Referências



Passos, M. L. R. F. (2003). A análise funcional do comportamento verbal em Verbal Behavior (1957) de B. F. Skinner. Revista Brasileira de Terapia Comportamental e Cognitiva, 2(V), 195-213.



Skinner, B. F. (1957). Verbal Behavior. Cambridge, Massachusetts: B. F. Skinner Foudation.

* Texto desenvolvido a partir do aprendizado na disciplina Comportamento Verbal do Programa de Pós-Graduação em Ciências do Comportamento da UNB.







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