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domingo, 6 de julho de 2014

Comportamento Verbal - Variáveis de Controle* {Parte 2 de 5}


    A seleção natural, o condicionamento operante e as práticas culturais, são as principais contingências responsáveis pelo desenvolvimento dos operantes verbais. Enquanto a seleção natural atua nos aspectos filogenéticos da espécie humana, o condicionamento operante atua no nível ontogenético. Já as práticas culturais dizem respeito à evolução da cultura decorrente dos agrupamentos de indivíduos. Estas contingências atuam sobre os organismos humanos de forma entrelaçada, fortalecendo, então, a ocorrência do comportamento verbal (Passos, 2003). 
    A compreensão destes três níveis de influências, que atuam juntas, sobre os operantes verbais, contribui para o entendimento das relações que se estabelecem na comunidade verbal. Sendo assim, o atual ensaio tem como objetivo definir e caracterizar os principais operantes verbais e suas variáveis de controle.

O Mando

Ordenar, suplicar, pedir, aconselhar ou advertir, são comportamentos verbais que estão sobre controle de estados de privação ou estimulação aversiva e, assim, especificam sua consequência. Nas palavras de Skinner (1957), o mando é classificado como um operante verbal cuja característica principal é especificar uma consequência e está sob controle de uma operação estabelecedora (p. ex. privação, saciação ou estimulação aversiva).

As variáveis de controle do operante verbal mando são as operações estabelecedoras ou motivadoras. Entende-se por operação estabelecedora (OE) aquelas variáveis de controle cujas propriedades afetam um organismo pela alteração momentânea da efetividade reforçadora ou punitiva de um evento e também alteram momentaneamente os repertórios do organismo que já foram reforçados ou punidos por esses eventos. Em outras palavras, OE são condições que alteram o valor reforçador daqueles estímulos que já possuem propriedades reforçadoras para o indivíduo, tanto em um nível incondicionado (filogenético) quanto condicionado (ontogenético).

As OE podem ser de três tipos, a contar: (1) As condicionadas substitutas (OECS), que são caracterizadas por situações em que um evento neutro, que antecede uma operação estabelecedora incondicionada, passa a ter as características motivacionais desta; (2) as operações estabelecedoras condicionadas reflexivas (OECR), que envolvem relações entre estímulos antecedentes e estímulos aversivos, em que um estímulo que precede uma estimulação aversiva, quando apresentado sozinho passa a estabelecer uma condição para a emissão de qualquer resposta que remova o estímulo aversivo; (3) as operações estabelecedoras condicionadas transitivas (OECT), que se referem às situações nas quais a efetividade reforçadora de um estímulo condicionado depende do contexto no qual este reforçador condicionado foi estabelecido. Atualmente, o termo operação motivadora é usado, pois contempla as operações estabelecedoras (OE) e as operações abolidoras (OA), que são aqueles eventos que diminuem a efetividade de uma dada consequência.

Para entendermos um episódio verbal de mando sob controle de operações estabelecedoras ou motivadoras, segue abaixo um exemplo na figura 1:



Observa-se que um indivíduo cansado e com sono, possivelmente em um contexto em que está deitado em sua cama e a luz de ser quarto está acesa, ordena que uma pessoa (ouvinte) apague a luz. Ao ter a luz apagada o falante pode então descansar e dormir, pois irá “saciar” seu sono e eliminar uma estimulação aversiva, no caso, a luz. Neste exemplo há uma OE (cansaço e privação de sono em um contexto para dormir) que faz da resposta verbal “Apague a luz” um mando que especifica uma consequência (ter a luz apagada).

Não existe somente um tipo de mando. Existem também o mando prolongado, o mando supersticioso e o mando mágico. O mando prolongado acontece quando mandamos em uma comunidade que não possui condições para nos reforçar. Exemplos de mando prolongados acontecem quando damos ordens para crianças muito pequenas, animais sem treinamento ou quando as próprias crianças mandam nos brinquedos. Já o mando supersticioso se caracteriza por um reforço acidental da resposta, como por exemplo: uma pessoa em uma festa de réveillon faz pedidos para que o ano seja mais próspero. Se o ano desta pessoa foi próspero ela poderá estabelecer uma relação entre seus pedidos e a prosperidade de seu ano, mas esta relação é acidental. Quanto ao mando mágico, o falante pode criar analogias com mandos antigos, mas há uma baixa probabilidade de reforço, pois não há mediação do ouvinte, como por exemplo: uma pessoa em um engarrafamento pode dizer “anda logo, transito!”, mas nada acontecer.

O Comportamento Verbal sob o Controle de Estímulos Verbais    

            Para Skinner (1957), controle do comportamento verbal por estímulo pode ser controlado por estímulos verbais e não verbais. Para tanto, o autor busca tratar as respostas sob o controle de estímulos verbais, escritos ou orais, proporcionados pelo próprio falante ou por outra pessoa. Assim, as três principais categorias discutidas pelo autor são: comportamento de repetição, textual e o intraverbal.

        Tanto o comportamento de repetição (ecóico) quanto o textual (cópia) possuem como antecedente um estímulo discriminativo verbal, uma similaridade formal e uma correspondência ponto a ponto. Quando o falante escuta outra pessoa dizendo a palavra “gato”, por exemplo, pode então responder de forma semelhante dizendo também a palavra “gato”. A repetição é apontada por Skinner (1957) como a forma mais simples de comportamento verbal seguido de antecedente verbal e costumeiramente está presente no repertório de crianças em desenvolvimento, em rimas poéticas e em comportamentos verbais “patológicos” como a ecolalia. O autor mostra que a semelhança formal entre o estímulo e a resposta constitui parte dessas contingências e só pode ser explicada apontando-se para o significado da semelhança para a comunidade reforçadora e que a resposta verbal de repetição não depende do instinto para a imitação.

Já o operante verbal textual caracteriza-se pelo comportamento controlado pelo antecedente verbal de uma palavra escrita ou impressa e a resposta é vocal. Neste caso, há entre o estímulo e a resposta uma correspondência formal, arbitrariamente estabelecida. Ou seja, na presença da palavra escrita “bolo” a pessoa lê a mesma palavra “bolo”. Um comportamento textual está sob controle, ponto a ponto, de variáveis mínimas que chamamos de letras. A diferença entre esse tipo de operante e de repetição, é que o textual é produzido por um estímulo visual e não sonoro. Além disso, há também o comportamento de transcrição em que a resposta verbal escrita está sob controle de um estímulo antecedente verbal, que pode ser vocal ou escrito. Bons exemplos do operante verbal transcrição são as atividades de cópia e ditado realizadas principalmente pelas crianças na escola.

            O comportamento verbal intraverbal também está sob controle total de estímulos verbais anteriores, sejam eles sonoros ou visuais, mas a resposta não será correspondente ponto a ponto com o estímulo anterior. Ou seja, após um estimulo verbal sonoro ou escrito “Qual é seu nome?” o indivíduo pode responder de forma verbal ou escrita “José”. Dentro das comunidades verbais encontra-se intraverbais que foram aprendidos e estão arraigados nos repertórios verbais das pessoas.

O Tacto

            Skinner (1957) cria o termo tacto fazendo referência ao comportamento de entrar em contato com o mundo físico e para descrever o operante verbal que é controlado por estímulo discriminativo não verbal e sua conseqüência é um reforço generalizado. Neste sentido, entende-se por estímulo discriminativo um estímulo presente no ambiente que sinaliza a liberação de um reforço após a emissão de certa resposta. Já o reforço generalizado diz respeito àqueles reforços que foram emparelhados com uma variedade de outros reforçadores e adquiriram propriedades adicionais, pois não estão relacionados a privações específicas.

Em outras palavras, o tacto é um operante verbal cuja resposta verbal é emitida sob controle de um estímulo antecedente específico não verbal e produz como consequência o reforço generalizado. Para entendermos um episódio de tacto, segue abaixo um exemplo na figura 2:




No exemplo acima, um estímulo discriminativo não verbal sinalizou que a resposta “Está chovendo!” seria reforçada. Neste exemplo, o tacto que é controlado por um estimulo discriminativo não-verbal, cuja consequência é o reforço generalizado, é chamado de tacto puro. Porém, um tato pode ficar sob controle de uma operação estabeledora, neste caso também é um mando e é chamado de tacto impuro (Skinner, 1957).

A habilidade de tatear em uma comunidade verbal é importante para que os indivíduos não só entrem em contato com o mundo físico, mas também com o mundo interno, dentro da pele, deles mesmos e, em com alguns limites, de outras pessoas. Desta forma, os ouvintes podem ter acesso, mesmo que limitado, ao mundo do falante. Além disso, o tato permite que a comunidade verbal entre em contato, por meio do comportamento verbal do falante, com vários aspectos da cultura na qual o falante está inserido.

Condições que Afetam o Controle de Estímulos

            Na segunda parte do Verbal Behavior, Skinner (1957) listou e exemplificou os principais operantes verbais, a contar: o mando, o tato, a repetição, a transcrição, o textual e o intraverbal. No capítulo seis, o autor preocupou-se em fazer um levantamento sobre os determinantes e as influências sobre tais operantes verbais. O assunto, portanto, diz respeito ao controle de estímulos.

O capítulo seis aponta que a principal característica do reforço generalizado nos episódios verbais é a atenção. Ao verbalizarem, os indivíduos são capazes de prender a atenção dos ouvintes. Em outras palavras, os indivíduos se desenvolvem em um mundo onde as pessoas falam, escrevem, lêem, etc, e com isso aprendem que para obter a atenção destas pessoas, precisam emitir comportamentos semelhantes e com as mesmas propriedades funcionais. Ao tocar outras pessoas por meio dos comportamentos verbais, os indivíduos podem receber não só a atenção, mas também garantir outros reforços, como por exemplo, dinheiro ou sexo em situações verbais de trabalho ou de conquista amorosa.

Por conta das relações funcionais em que os reforços generalizados mantêm os comportamentos verbais, um falante pode apresentar verbalizações distorcidas. Um exemplo deste fenômeno é o tato distorcido, que é uma forma de contracontrole verbal a algum controle aversivo; como no caso das pessoas que mentem para não serem punidas.

Outra condição que afeta os episódios verbais é a punição. Skinner (1957) aponta que a punição do comportamento verbal pode ser de várias formas, como por exemplo: a desaprovação, suspensão de privilégios e até mesmo o silêncio. Para o autor, os efeitos da punição sobre o comportamento verbal podem indicar uma generalização em que se uma resposta for punida, o efeito se generalizará sobre respostas similares ou sobre respostas dadas em circunstâncias semelhantes. Se a atenção é o principal reforço generalizado nos episódios verbais, então, possivelmente, para punir um comportamento verbal não é preciso usar de agressões físicas ou verbais. Para tanto, basta não dar atenção ou ignorar a pessoa que emitiu uma verbalização inadequada. Nesse sentido, ao contrário de agredir, falar mal ou gritar (punição positiva), a punição negativa pode ser eficiente, pois parar de dar atenção às pessoas costuma ter efeito punitivo mais amplo e menos danoso.

Uma questão importante apresentada neste capítulo é que o falante e ouvinte podem ser a mesma pessoa, como no caso da leitura em que o leitor pode reagir ao seu próprio comportamento textual como ouvinte. Esta condição ajuda a compreender o comportamento de pensar como um contato social que o indivíduo faz com ele mesmo.

A Audiência

         Uma outra condição especial do controle de estímulos é a audiência. As pessoas falam, escrevem, sinalizam, etc, porque há outras pessoas que as ouvem, lêem, compreendem, etc. Até mesmo quando falamos sozinhos, há um ouvinte: nós mesmos. Assim, um ouvinte como audiência tem funções múltiplas: ser estímulo discriminativo e provedor de reforçadores. A audiência será então um estímulo discriminativo na presença do qual o comportamento verbal é caracteristicamente reforçado e diferentes audiências controlam diferentes subdivisões do repertório do falante. A audiência aparece sempre entre as condições antecedentes relacionadas com a emissão da resposta que constitui determinado operante verbal.

            A audiência pode ser positiva ou negativa. Será positiva quando especificar uma condição para que o comportamento verbal seja reforçado, e será negativa quando apontar uma condição na qual o comportamento verbal não será reforçado ou será punido. Neste sentido, se alguém tentar conversar sobre novelas com outra pessoa que não gosta e não assiste novela, seu comportamento verbal não será reforçado, pois aquele que não gosta de novelas não será uma audiência adequada para o comportamento de falar sobre novelas.

O Operante Verbal como Unidade de Análise

            Neste capítulo há um breve resumo sobre os seis tipos de relações funcionais existentes nos episódios verbais, a contar: (1) no mando, uma forma de resposta controlada por estados de privação ou estimulação aversiva produzirá um reforço específico; (2) nos comportamentos ecóico, textual e intraverbal a resposta é determinada por um estímulo verbal anterior, que pode ser sonoro, escrito ou ambos, e o reforço será generalizado; (3) no tacto, o estímulo que controla a forma de resposta costuma ser não-verbal e há generalização do reforço e a (4) a audiência é um estímulo anterior, usualmente não-verbal, que controla grupos de respostas (Skinner, 1957).

            O interesse nesta revisão para fechar a unidade concernente às variáveis de controle é para discutir as unidades de análises presentes no comportamento verbal. São os operantes verbais, com suas propriedades funcionais e contextuais, as unidades mínimas para esta análise. Portanto, os estudos dos comportamentos verbais feitos por meio da linguística ou da gramática são excluídos da abordagem funcionalista e contextualista, pois estes estudos poderiam considerar as palavras, frases, letras, sons, etc, como as unidades mínimas do comportamento verbal.

Considerações Finais

        Todos os operantes verbais aqui descritos possuem propriedades singulares, mas atuam de forma entrelaçada em episódios verbais complexos, como por exemplo, aqueles que envolvem descrição de sentimentos. Assim, um analista do comportamento pode atentar-se não só para a relação experiencial que um indivíduo estabelece com seu mundo físico, mas também com seu mundo privado.
     Além disso, Skinner mostra que o estudo do comportamento verbal contribui para o entendimento do como a cultura de desenvolve e as razões pelas quais as comunidades verbais reforçam ou punem certas verbalizações. Em outras palavras, podemos dizer que para o bem ou para o mal é a comunidade verbal a raiz das práticas culturais dos humanos.





Referências



Passos, M. L. R. F. (2003). A análise funcional do comportamento verbal em Verbal Behavior (1957) de B. F. Skinner. Revista Brasileira de Terapia Comportamental e Cognitiva, 2(V), 195-213.



Skinner, B. F. (1957). Verbal Behavior. Cambridge, Massachusetts: B. F. Skinner Foudation.

* Texto desenvolvido a partir do aprendizado na disciplina Comportamento Verbal do Programa de Pós-Graduação em Ciências do Comportamento da UNB.







domingo, 15 de abril de 2012

Nova Resolução do Conselho Federal de Psicologia Sobre Testes Psicológicos

Prezados(as) Colegas Psicólogos(as),
     O CFP divulga da Resolução 005/2012, que trata sobre os instrumentos de nossa prática profissional - os testes psicológicos.
No link abaixo vocês terão acesso a essa novidade.

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

A Interação Entre Fatores Biológicos e Ambientais na Vida Humana

É comum, quando falam sobre comportamento humano, perceber certa polêmica quanto à origem e manutenção das ações que as pessoas exercem no mundo. Sempre há  discussão e confusão sobre as questões inatas ou aprendidas dos comportamentos humanos. “Fulano faz o que faz por que nasceu assim? As atitudes de Siclano foram aprendidas com seus pais? Beltrano é violento em decorrência de fatores biológicos ou sociais?”. Na busca de respostas para estas perguntas, a polêmica emerge. Felizmente esta discussão já se tornou retrógrada, pois atualmente os conceitos de inato e/ou adquirido não são mais excludentes.
Do ponto de vista de psicologia (principalmente da Análise do Comportamento) e da ciência atual, as pessoas nascem com um aparato biológico/fisiológico que permite que vários comportamentos sejam possíveis. O desenvolvimento potencial destes comportamentos ocorrerá em acordo com vários fatores, entre eles a estimulação adequada. Como os humanos são muito vulneráveis e desamparados ao nascer, durante toda a sua vida eles necessitarão aprender constantemente uma gama de habilidades que os ajudarão a viver em um mundo que está em contínua transformação. O aprendizado destas habilidades ocorre de forma social. Neste sentido podemos pensar que há uma interação entre os elementos biológicos e culturais; este movimento constante é o que fortalece os comportamentos humanos. Em outras palavras, os fatores sociais (cultura, ambiente, escola, família, religião, economia, etc.) e os biológicos (genética, fisiologia, neurologia, etc.) vão se delineando e interligando em uma complexa rede de eventos e comportamentos e, assim, formarão o complexo sistema psicológico dos indivíduos e dos grupos.
Contudo, podemos afirmar que uma pessoa, por exemplo, é violenta porque nasceu assim ou porque aprendeu a ser assim? Nenhuma das alternativas pode ser uma resposta suficiente e adequada para responder o que determina este e outros comportamentos. Como a vida humana é constituída biologicamente e culturalmente, de forma complexa, não é possível afirmar que um único fator, seja ele biológico ou ambiental, determinará certo comportamento. A ideia é que apenas um fator não tem força suficiente para determinar nenhum comportamento, mas que este fator interagindo com outros diversos fatores é que fortalecerá a ocorrência e manutenção dos comportamentos. 

Sugestão de Leitura
Ciência E Comportamento Humano de B. F. Skinner

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

Os Papeis e os Saberes da Psicologia.


  Quando ingressei no curso de psicologia aprendi que o papel central do psicólogo firma-se na avaliação de comportamentos e contextos para que seja possível a modificação destes comportamentos e contextos caso estejam interferindo no bem estar do indivíduo e/ou grupo. Para avaliar os objetos psicológicos e estabelecer uma futura intervenção, o psicólogo deve aprender e carregar um conhecimento vasto sobre os elementos que compõe as demandas humanas.
  Na realização de seu trabalho, o psicólogo se comunica com outras áreas do conhecimento humano, como: biologia, medicina, filosofia, sociologia, sexologia, educação, etc.  Ressalta-se também aqueles profissionais psicólogos que buscam conhecimentos sobre as demandas espirituais de seus clientes. Contudo, é possível conceber a psicologia como um saber vasto e colorido de outros saberes. E é evidente que essa multidisciplinaridade de conhecimentos abra diversos campos e papeis para a prática dos psicólogos.
  Acontece que a prática da psicologia, há um tempo significativo, vem sendo contestada pela falta de exclusividade para com o conhecimento humano.
Vi e ouvi, durante minha formação e vida profissional, pessoas apontando que o psicólogo pode ser substituído por qualquer outro profissional em qualquer outro contexto. Vejamos: Um psicólogo clínico pode ser substituído por um psiquiatra, ou filósofo clínico, ou terapeuta espiritualista? Um psicólogo escolar pode ser substituído por pedagogo, psicopedagogo ou orientador escolar? Um psicólogo social pode ser substituído por um sociólogo ou assistente social? Um psicólogo organizacional pode ser substituído por um administrador?
  Para responder estas perguntas eu cito aqui parte do Art. 4º da Lei nº 4.119, 27 de agosto de 1962, que dispõe sobre a Profissão de Psicólogo - São funções do psicólogo:
1) Utilizar métodos e técnicas psicológicas com o objetivo de:
a) diagnóstico psicológico; b) orientação e seleção profissional; c) orientação psicopedagógica; d) solução de problemas de ajustamento.
  Agora pergunto: Somente os psicólogos conseguem cumprir com estas funções? Estamos vendo que não. E por esse motivo é que sabemos que os outros profissionais citados acima, além de partilharem conhecimentos parecidos com os da psicologia, podem ajudar também nas demandas humanas assim como um psicólogo faria.
  E a exclusividade do manuseio e análise dos testes e instrumentos psicológicos garantida pela Lei nº 4.119/62 e pela Resolução CFP n° 02/2003? Embora seja uma prática privativa dos psicólogos, sabemos que muitos profissionais não utilizam testes em seus trabalhos. Além disso, boa parte dos instrumentos psicológicos não foram produzidos por psicólogos e não avaliam construtos que só psicólogos dominam.
  Estamos diante de uma polêmica quanto à prática profissional dos psicólogos. E frente a esta polêmica eu me posiciono apontando que os saberes da psicologia, por serem multidisciplinares, precisam muito mais de bases teóricas fortes e de procedimentos que diminuam as armadilhas das inferências e que apontem para evidências.      Neste sentido, as pesquisas em psicologia estão contribuindo bastante e isso já ajuda no delineamento de uma psicologia forte e indispensável para a sociedade. Mas acredito que as Universidades ainda precisam rever os conteúdos e conhecimentos repassados aos futuros psicólogos, pois tenho visto muitos profissionais descomprometidos com a responsabilidade social, científica e ética da psicologia. Tenho visto psicólogos chiques com discursos chiques e sedutores, mas sem apresentar nenhuma evidência verídica de suas falas. Isso desqualifica a profissão e abre contestações quanto às nossas práticas.
  Se nós psicólogos escolhemos esta profissão para responder as demandas humanas e estabelecer intervenções em prol da saúde mental dos indivíduos e grupos, precisamos voltar às funções de nossa profissão e ressignificar nossas práticas enfocando nosso compromisso com a sociedade, com a ciência e com a ética.

Sugestão de Leituras:
Profissão de Psicólogo - Lei nº 4.119, de agosto de 1962. Em http://portalsaude.vilabol.uol.com.br/4119_1962.htm

Resolução CFP nº 2 / 2003. Em http://www.pol.org.br/pol/cms/pol/legislacao/resolucao/resolucao_2003_002.html

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

CRP-09 consolida propostas sobre Avaliação Psicológica com Evento Regional

      No dia 29 de novembro de 2011, o CRP-09 abriu espaço para as discuções a respeito do Ano Temático da Avaliação Psicológica. A psicóloga Karla Mendes da Cruz e eu, participamos da discução consolidando as propostas referentes ao eixo sobre Avaliação Psicológica em Contextos Institucionais.
Caros colegas profissionais da psicologia, confiram nos links abaixo os detalhes sobre este evento.


domingo, 21 de agosto de 2011

Diversidade Sexual e Psicologia

As várias formas de expressão afetiva e sexual, assim como as expressões de gênero, dizem respeito às questões que envolvem a Diversidade Sexual. Este tema vem ganhando cada vez mais espaço na mídia e os grupos que compõem o “leque” da diversidade sexual têm conquistado espaços sociais importantes. Mas ainda existem muitos tabus e preconceitos sobre o que é “aceitar a diversidade” e, principalmente, sobre qual é o papel dos psicólogos neste fenômeno.
É importante considerar que em uma sociedade organizada e educada para ser heterossexual é comum que mitos e estranhamentos surjam quando indivíduos apresentam comportamentos e práticas diferentes das “programadas” culturalmente. Porém, é interessante observar, neste caso, que o estranhamento, em geral, não produz reflexão e sim discriminação. A discriminação, homofobia, ou qualquer nome que se queira dar ao ato coercitivo em relação à diversidade sexual e de gênero tornou-se uma prática social na qual a coerção sobre o “diferente”, no caso o público LGBT, é passada de um indivíduo para o outro por meio da educação e imitação (Pedrosa, 2006). Pode-se refletir que o preconceito e a discriminação contra o público LGBT desenvolvem-se com o aprendizado de valores, normas, regras, crenças, etc. Por essas razões é que profissionais da psicologia precisam compreender os fenômenos que envolvem a diversidade sexual para assim articularem formas de acolhimento e intervenção.
O Conselho Federal de Psicologia (1999), por meio da resolução 001/99 ajuda os psicólogos a compreender este tema apontando que a homossexualidade não constitui doença, distúrbio e nem perversão. Esta discussão está em consonância com a Organização Mundial de Saúde (OMS) que deixou de colocar a homossexualidade no rol de doença em 1991 (Pedrosa, 2006). E o Art. 2º da resolução 001/99 do CFP, resolve que “os psicólogos deverão contribuir, com seu conhecimento, para uma reflexão sobre o preconceito e o desaparecimento de discriminações e estigmatizações contra aqueles que apresentam comportamentos ou práticas homoeróticas”. É interessante notar que estes órgão da saúde preocupam-se em não associar a orientação homossexual à aspectos patológicos.
Além das orientações do Conselho Federal de Psicologia, o que mais pode contribuir para a compreensão e “aceitação” da diversidade sexual por parte dos psicólogos? É preciso relembrar que o papel principal da psicologia é o de promoção de saúde biopsicossocial; e como tal precisa estar em consonância com aspectos sociais que envolvem a promoção da cidadania e dos direitos humanos. Ressaltam-se os principais direitos humanos relevantes para esta atual reflexão: “ser tratado com respeito e dignidade”, “expressar os próprios sentimentos”, “fazer qualquer coisa, desde que não viole os direitos de outra pessoa” e “ter direito e defendê-los”. Ao zelar pelos direitos humanos universais, os psicólogos também estão “aceitando” a diversidade sexual e zelando pela qualidade de vida dos indivíduos que acolhem na sua prática profissional.

Referências Bibliográficas
Conselho Federal de Psicologia (1999). Resolução nº. 001/99. Estabelece normas de atuação para psicólogos em relação à questão da orientação sexual. Brasília, DF.
Pedrosa, J. B. (2006). Segundo desejo. São Paulo: Iglu.

segunda-feira, 7 de março de 2011

A Importância da Psicologia Clínica



A Psicologia é uma área do conhecimento humano que há algumas décadas vem sendo utilizada como instrumento para a promoção de saúde global. As pesquisas, as teorias e as aplicações sobre conhecimentos filosóficos e científicos deram um colorido especial à atuação do Psicólogo Clínico e tornaram relevante a existência da Psicoterapia.
A Psicoterapia diz respeito ao uso de técnicas psicológicas elaboradas que incentivam o entendimento e a mudança dos problemas emocionais, comportamentais e interpessoais (Hockenbury & Hockenbury; 2003). Em outras palavras, a Psicoterapia é um processo no qual o indivíduo encontrará meios para compreender suas dinâmicas internas, adquirir autoconhecimento, aprender resolver conflitos e aprimorar seus contatos afetivos. Além disso, o processo Psicoterapêutico pode levar o indivíduo a encontrar saúde física e mental.
O Psicólogo Eduardo Trindade de Araújo (2010) em entrevista à Folha de Niterói pontuou que a Psicoterapia ajuda o cliente a readquirir o controle de suas emoções, o que possibilita melhores resultados no tratamento de várias doenças. O Psicólogo ainda afirma que o desequilíbrio emocional dos indivíduos pode facilitar o aparecimento de doenças ou mesmo agravar os sintomas já existentes.
Para a Psicóloga Andréa Andrade (2009) a Psicoterapia ocupa hoje um lugar fundamental na área da saúde e pode cumprir também uma função de educação para a vida, oferecendo um espaço para reflexão, com instrumentos e conhecimentos que podem ajudar na orientação e condução da vida das pessoas.
Como Analista do Comportamento vejo que a Psicologia geral e em especial a Psicoterapia mostram que o ser humano deve ser contemplado de forma global e que as características humanas surgem em decorrência de uma complexa interação de múltiplos fatores que vão delineando as vivências e as subjetividades humanas. Dito isso, as experiências humanas (pessoais, social e/ou culturais) são objetos importantes da Psicoterapia que precisam ser avaliados para que os indivíduos tenham condições de contemplar seus problemas e delinear possíveis mudanças de padrões psíquicos ou comportamentais.  


Referências

Andrade, A. & Andrade, A. P. (2009). A importância da psicoterapia. Retirado de http://apapsicologia.blogspot.com/2009/05/importancia-da-psicoterapia.html em 02 de março de 2011.

Araújo, E. T. (2010). A importância da psicologia clínica no tratamento das doenças. Retirado de http://www.folhanit.com.br/753/artigo.htm em 02 de março de 2011.

Hockenbury, D. H. & Hockenbury, S. E. (2003). Descobrindo a psicologia. Barueri: Manole.
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